O espetáculo Engenho K. é baseado na obra de um dos grandes expoentes da literatura do século XX, Franz Kafka. Kafka formou-se em direito no ano de 1906 e, logo em seguida, passou a exercer cargos burocráticos. Talvez por sua formação acadêmica e, experiência profissional, suas obras estejam preenchidas de críticas à lei, à burocratização dos governos, à crise da justiça e, à hipocrisia reinante nas variadas relações sociais. Suas principais obras foram: a metamorfose, que conta a história de Gregor Samsa, um burocrata, que num dado dia se metamorfoseia em uma grande barata; e o livro o processo, que conta a história de Joseph K., que ao acordar é acusado por dois guardas de algo que nem imagina o que seja, algo que transpõe a realidade factual. A adaptação da obra de Kafka, Engenho K., situa o acontecimento no bairro da Federação, na capital baiana, entretanto, poderíamos assistir a tal espetáculo em qualquer canto do planeta onde existam conflitos e, rivalidades.
Para quem leu o livro, a adaptação dirigida por Ruy César, supera em termos de interação público-personagem o filme de 1962 dirigido por Orson Welles. Pois, enquanto que na obra de Kafka e no filme de Welles solidarizamos com Joseph K.(o personagem principal) um mínimo de desespero, no espetáculo teatral somos parte deste processo, somos réus, e como tais, ficamos atordoados com a idéia de estarmos sendo acusados de algo que não temos noção do que seja, pois, afinal, estávamos ali apenas para ver uma peça teatral. A própria montagem do cenário, diversas cadeiras e arquibancadas através das quais os atores circulavam e, onde os espectadores estavam sentados, possibilitava uma maior aproximação dos personagens com o público, o que, mais uma vez possibilita a idéia de que nós também fazemos parte da peça. Em uma palavra, poderíamos dizer que a interação é quase total.
Os atores revezavam no papel de réu, investigador, policial, açoitador, estudante, dentre outros personagens, querendo expressar que todos ali presentes, representando a sociedade em geral, assumiam os papeis de vítima e de algoz. Foi possível, depois da montagem, uma interpretação extensiva da obra de Kafka. Pode-se perceber, agora, que o processo kafkiano transpõe a esfera judicial e, englobando a questão do preconceito de raça, orientação sexual e perspectiva religiosa, expressa-se como situação corriqueira e presente nas relações sociais do dia-a-dia.
Um dado a ser constatado é a quase percepção, ou melhor, a sensação de estarmos em um hospício. Ataques de loucura eram constantes nos personagens, além da utilização do silêncio, do estalar de dedos e, principalmente, de tosses, toques ritmados na madeira, e falas confusas e simultâneas dos atores, para expor o espectador à angústia e desespero daquela situação (processo kafkiano).
Foram utilizados poucos recursos musicais, mas isto, de forma alguma prejudica a peça, pois talvez tenha sido esta a intenção do diretor desta montagem. Pode-se entender isto da seguinte forma: (a) enquanto que a sonoridade expressa uma idéia ou realidade teatralizada, (b) a inexistência de som, ou a sua pouco utilização, expressa a realidade da situação, que passa a ser sentida verdadeiramente. Ou seja, sem som estávamos submergidos na mais pura realidade processual kafkiana.
Por fim, vale ressaltar, que a atuação dos atores e toda equipe técnica, principalmente os figurinistas e suas roupas extravagantes e conservadoras ao mesmo tempo, foi espetacular. A adaptação atingiu seus objetivos possibilitando muitas interpretações da obra Kafkiana. Espero que mais adaptações realizadas pelo Grupo Via Magia de Teatro, venham por aí.
DANILO ARGOLLO
